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Só vejo os meus pés. Estão juntos e tranquilos numa imensidão de azul. . Azul que cria e destrói um branco que não existe. Uma tranquilidade que contrasta com o vendaval que sinto na minha cabeça.
Mal sinto o calor do Sol a aquecer o meu corpo, ou o sal que o vento rouba às ondas do mar. A queda é grande, fatal, um abismo para o desconhecido, estou a um passo do vazio. Um vazio que é infinito, como o nada onde pode estar qualquer coisa, procuro a corda onde me poderei agarrar para voltar a sentir o calor do colo da minha mãe a dizer baixinho - não chores, vai tudo correr bem - e quanto mais aperto mais sinto o conforto que me foge entre as mãos, apetece-me gritar, mas não tenho forças
.
As perguntas sucedem-se como os pequenos grãos de areia, que lá bem em baixo deixam fugir toda a água que se aproxima. Será que vou morrer ?...
É sempre tudo sobre ti, não é? - ouço uma voz dizer .
A tristeza profunda que sinto sela a minha boca como gelo que se propaga por todo o meu corpo, não me deixa dizer nada, não me deixa pensar. Sinto a fragilidade desse mesmo gelo que pode quebrar a qualquer impacto, desafazendo-me .
Sim! Tu sofres, Tu fazes, Tu vais morrer?, Tu vais viver?, eles gostam de Ti?, Tu fizeste a coisa certa? - Não é demais ?
Um ardor da raiva provoca-me um degelo instantâneo que consigo sentir dos ossos aos poros da minha pele. - Quem és tu? O que é que tu sabes? Deixa-me adivinhar estás na paz do senhor? Encontras-te a tua paz interior nas montanhas e vais salvar a humanidade da perdição. Senhor todo poderoso, vai acabar com o sofrimento do mundo! Sim estou cego! Cego pelo sofrimento que não me deixa ver para lá de mim próprio. Sei que não sou vitima de ninguém se não de mim mesmo, e então? Isso é suposto ajudar,? Ah pois! Há tanta gente por aí na multidão. Esses sim têm uma vida desgraçada! Que hipócrita eu! Ter pena de mim próprio não tendo nada de que me queixar... Deixa-me adivinhar vens dizer-me que não estou só, para pensar em todos os que me amam! Pois olha azar, também nunca me amaram a mim, mas sim o filho brilhante que queriam que fosse, o namorado compreensivo, o amigo disponível, o que compreende e aceita, o que se destrói e deixa destruir toda a sua individualidade para ser aceite, para ser mais um, mais uma cópia. Estou farto. Não tenho forças para aguentar mais... Desculpa! - o ardor inflama-se em todo o meu corpo, saindo pelos meus olhos como um rio que corre para o mar com a força de uma descarga eléctrica - Estou a chorar ...
Tu só queres morrer porque já estás morto, vamos tratar de te enterrar ou isto fica para aqui tudo uma porcaria. Anda. Dá-me uma ajuda .
Espera .
Então ?
Eu não quero morrer !
Eu sei! Mas a verdade é que já estás quase morto. Olha bem para ti, todas as tuas partes já não são realmente tuas. Tu próprio disseste, criaste-as em função do que te rodeia. Não sinto o teu pulso. Mexeste tanto nos ponteiro que o teu relógio parou! Quem és tu? O Diogo? o Manel? o André? o menino com a força de mudar o mundo e contruir um império? o rapaz que sonha com o palco? O velho que dá uma esmola ao roto? O chefe que faz crescer o seu negócio? O empregado que ajuda os colegas? O cobarde que tem medo de dizer que ama? O corajoso capaz de dar a vida por um amigo? Se me deres uma ajudinha matamos-te num estantinho. Só não te posso é dizer que não dói nada .
Tu não percebes mesmo, pois não? Se tu soubesses?... ou se eu soubesse ...
Tens razão... eu não percebo! E honestamente não sei! Mas sei, e tão bem como tu, que nunca vou saber . Mas... Por um lado tu dizes que não queres morrer! Eu quero-te ajudar a morrer! Temos aqui um conflicto de interesses, tens alguma sugestão ?
Não sei quem és, nem te posso tocar. Faz o que quiseres, eu desisto... Se nunca vou saber, não vale a pena. A coragem que me falta é do tamanho da minha cobardia para escrever o ponto final. Pior que tudo é que a minha consciência diz-me que isto é ridículo. Que eu sou ridículo por sequer pensar nestas coisas. Sei que as regras são simples, porque é que eu não posso ser simplesmente uma pessoa normal !
Uhm! Deste-me uma ideia! Vamos fazer um jogo. Eu não sei o que é isso de uma pessoa normal, se tu me conseguires explicar o que isso é eu ajudo-te a ser uma, se não tu ajudas-me a matar-te ?
Desculpa!? O quê!? Em primeiro lugar não vejo como me possas ajudar, em segundo não acho inteligente confiar em alguém que me quer matar!!!
Não achas que se eu te pudesse matar sem a tua ajuda já não estava aqui a perder o meu tempo? Em relação à minha ajuda vais ter que acreditar em mim, mas ouve uma coisa, eu não minto, não posso, não consigo - mesmo! E acredites ou não, tu sabes isso . "
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