domingo, 28 de janeiro de 2007

III - In the inner side of me

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uma coisa, desculpa estar a interromper-te, mas é que não estou a conseguir seguir o teu raciocínio. Se bem percebi, tudo o dissestes até agora é apenas o crecimento de todos nós. Até me parece bastante "normal", como tu dizes...

Tu não estás a perceber! Deixa-me continuar que vais perceber.

Ok, não tenho pressa. Mas acho que ajudava se fosses mais concreto, mais verdadeiro, mais tu! Ups! Provavelmente já não te lembras de ti :) Desculpa o sarcasmo mas gostava mesmo de te matar...

Fogo, tu és mesmo insensível! Mas também do que já vi até hoje esquece! Vou continuar...

Eu sei que todos temos problemas, dúvidas, questões, partilhamo-las com quem nos rodeia, e todos nos olham a pensar - Epá estás crescido! - Mas há dúvidas que não podemos ter! Simplesmente não podemos, e eu desde pequeno que vi o que acontecia aos que tentavam expô-las - simplesmente deixavam de existir. Quem é que vai brincar no recreio com o rapaz gordo? E com o rapaz de óculos! Não podes! Ele não é normal! Sim, eu sei todos sobrevivemos a isso! Crescemos e aprendemos! Mas o problema é quando tu és o rapaz diferente e ninguém sabe, ninguém percebe, tu não podes deixar ficar mal a tua imagem, o teu sucesso, todas as expectativas criadas à tua volta!

Queres que seja mais concreto? Então aqui vai... Eu desde pequeno que sei dentro de mim que sou diferente, ao principio pensava que isso era bom, todos me amavam à minha volta, gostava de brincar, de saltar, de pular, de representar, de fazer e acontecer, mas à minha volta os interesses mudavam, era o jogo da bola, era andar à pancada, era correr e ser o melhor, ser o primeiro, e eu simplesmente era feliz! Não queria, não precisava de mudar nada, mas as coisas mudavam sem que eu pudesse fazer alguma coisa! Não tive outro remédio, a pressão era tanta que tive que me adaptar, passar a fazer coisas que nada tinham a ver comigo, sempre com o maior sorriso na cara. Não digo que foi mau ou traumático, sempre enfrentei a vida com demasiada curiosidade para me deixar ir a baixo, achava que tudo fazia parte do processo... Até que percebi o quanto estava enganado. Eu era mesmo diferente! Eu sentia-me atraído por rapazes! O meu mundo desabou! Ruiu completamente para um poço sem fundo... Casar, ter filhos, uma casa grande cheia de miúdos a correr e a brincar. Esquece! É impossível! Ou talvez não! Não sei! Se calhar estou a exagerar! Se calhar só estou a pensar assim por causa daquela brincadeira inocente com o meu primo... Uff! Há esperança! Tenho que tirar estas ideias doentes da cabeça! Eu sou mas é um prevertido! Mas continua, a "doença" alastra sem eu sequer dar por isso, a angústia é anormal, as namoradas sucedem-se aos falhanços, no cinema as lágrimas escorrem com o beijo apaixonado das princesas e dos príncipes que eu nunca poderei ser! Até que percebo que está montado à minha volta um cerco de arame farpado, com sensores de raios lazer e guilhetinas afiadas, tudo pronto a derramar o sangue que for preciso. Basta uma fraqueza, um momento de falta de atenção e precebo, tenho que por uma pedra neste assunto.

Substituo o coração pela pedra na esperança que o sangue deixe de correr, mas a força é tão grande que o inevítável acontece - a vida dupla! É vergonhoso! É miserável! Aliás se contasse alguém como história de um amigo, de certeza que me diriam - coitado... como pôde desistir de si! De ser feliz! É mesmo triste alguém ter de passar por isso... Porque é que ele não pediu ajuda? Pergunta que se respondia instanteneamente se lhes dissesse que esse amigo sou eu... Aposto a minha vida que fugiriam de mim como se tivesse lepra... Perderia todo o respeito, a minha liberdade de expressão, passaria a ser o paneleiro, o maricas, o roto, o que é gay, as bocas seriam impossíveis... Cuidado com ele... Ele vem por trás? olha o trinca almofadas, quando simplesmente se trada de amor! DE AMAR! DE SER AMADO! Um amor que é impossível...

Não estou a falar de cor, eu vi isto acontecer bem ao meu lado! Percebes?

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