domingo, 28 de janeiro de 2007

II - The dark side of the force

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quero perceber se quero realmente viver e como quero viver. Uma vez que não tenho nada a perder, aceito... O meu estado de espírito é de desepero, não tenho forças para mais lutar, contra mim e contra a multidão. Vai em frente e dá estocada final.

Ok! Então vamos a isso. O que é isso que tu desperadamente queres, isso de ser normal?

Estejas onde estiveres é melhor sentares-te porque isto é bem capaz de demorar um bom bocado...

O nascimento de uma pessoa é como um sismo que altera tudo o que está em volta do epicentro desse coração que começou a bater, com sucessivas réplicas de amor que aquecem esse pequeno mundo, onde ninguém pode entrar. Estou ali. Sou um bebé. Igual a tantos outros. Tenho que chorar para comer, mas não existem problemas, porque sou normal. Porque faço aquilo que todos esperam que faça. O meu leque de possibilidades está limitado pela normalidade. Não tenho que pensar, que ter consciência, tudo o que faça é normal. A partir daí é sempre a perder... - "és isto, és aquilo, és assim, és mau, és tão querido, tão fofinho, tão bonito, tão feio, quando fores grande, um dia vais perceber" - todo o teu futuro é contruído pelos que te rodeiam, sem sequer tu te dares conta. Com uma vida à tua frente, e já todos sabem exactamente o que és, e o que serás, de preferência num fundo azul bebé cheio de estrelas brilhantes. Até que! Quase sem te dares conta! A cada dia que passa percebes que não consegues limpar todas essas estrelas, o céu às vezes fica tão escuro que tu pensas - Algo de errado se passa comigo!

A felicidade dos que te rodeiam escurece o teu céu como um manto negro que acentua a tua diferença e te afasta cada vez mais dessa multidão e as vozes sucedem-se - "Comporta-te, Não vez que não é assim [Não é tão óbvio!!!], olha para o teu irmão, olha para os teus amigos, tens de ser esperto, tens de ser inteligente, tens de ser brilhante..." - Tudo isto piora com a chegada do dia em que tens de começar a cortar esse cordão umbilical e és lançado no circo de feras. Agora vais para escola, aí sim vais aprender a ser o que nós já te dissemos que ías ser. Ao contrário de uma leve esperança de um mundo onde todos são diferentes dás por ti a lutar para ser exactamente igual a tantos outros numa competição sanguinárea. Isto porquê! Para seres aceite, para pertenceres, para estares do lado certo do dedo que aponta. Para entrares na elite que todos apontam! E poderes ouvir "gosto de ti", "gosto tanto de ti", um quase amo-te que nunca vem só. Que arrasta sempre o que tu um dia vais ser como um prémio que os que te rodeiam possam ter na estante e já velhinhos limpar o pó e dizer "Não fracassei!".

E ali estás tu - só - cada vez mais perdido, onde crescem duas forças a um ritmo alucinante, a tua força de seres e a força de não seres de te subjugares à multidão, até que percebes, torna-se claro, tão como a água mais límpida que nem existe - eu não pertenço aqui, eu não me ajusto a esta multidão, eu sou diferente! - Porquê? - É só o que te apetece gritar. Mas estás fraco, a guerra é tão cerrada que vais assumindo a derrota e criando estratégias para sobreviveres. Já não importa a guerra, já não importam os que esperam pelo teu regresso, só as batalhas, só o sobreviver a cada dia, perdes o sentido...

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